Conheça os destinos turísticos que querem receber menos visitantes

Enquanto as autoridades de numerosas cidades do mundo investem bilhões para atrair turistas, algumas localidades estão enfrentando um problema no sentido oposto — recebem turistas demais.

Veneza, Amsterdã, Barcelona, ou até o Butão, pequeno país asiático, entre outros destinos, decidiram limitar — ou até proibir — o ingresso de turistas em determinados locais, após sofrer com as consequências negativas do turismo de massa: caos urbano, deterioração dos recursos naturais, especulação imobiliária desenfreada, surgimento de centenas de restaurantes de fast food e lojas de souvenirs, além de protestos dos habitantes insatisfeitos.

Com a chegada do verão no Hemisfério Norte, e com ele o recomeço da temporada de turismo de massa, a mídia internacional voltou a denunciar a situação dessas localidades turísticas, onde o número de visitantes supera o limite suportável para quem vive ali.

O jornal norte-americano “The New York Times” publicou nesta quinta-feira (03) uma reportagem alertando sobre o risco de que “Veneza se torne uma Disneylândia no mar”.

“A música de fundo da cidade agora são as rodinhas das malas que sobem os degraus das passarelas e o barulho de falanges de turistas que marcham ao longo dos canais”, descreve o jornal nova-iorquino.

Uma situação que já levou o prefeito de Veneza e o governador da região do Vêneto a anunciar que a partir do ano que vêm o número de turistas que acessarão ao arquipélago será limitado.

Essa linha de ação segue aquela já implementada em muitas outras cidades do mundo.

Veja a seguir quais alguns destinos onde os turistas nem sempre encontrarão uma recepção calorosa:

Veneza, Itália

Vista da Praça de São Marcos, em Veneza (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Vista da Praça de São Marcos, em Veneza (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Antiga potência marítima e mercantil, hoje Veneza corre o risco de ser dominada pelas hordas de turistas. A romântica cidade italiana está enfrentando um gigantesco afluxo de turistas: mais de 20 milhões por ano.

Uma massa de gente que está deixando a cidade inabitável para os venezianos, que não por acaso estão abandonando suas casas, transformadas em pousadas e anunciadas no site de locações AirBnb. Em 1951, Veneza tinha 175 mil habitantes, hoje são apenas 50 mil.

Os que ficaram estão insatisfeitos com o proliferar de lojas de fast food e bugigangas, que substituíram supermercados e até cinemas. Hoje Veneza não tem nenhuma sala de cinema funcionado.

Em março moradores de Veneza protestaram contra o turismo de massa e contra a degradação provocada pelo excesso de turistas, que estaria deixando insustentável a vida na cidade italiana. Em julho um referendo informal levou 18 mil venezianos a se expressar contra o ingresso de grandes navios de cruzeiro dentro da Laguna de Veneza.

A prefeitura também decidiu reagir, anunciando que já não permitirá a abertura de novas lojas de fast food para “preservar o decoro e as tradições” da cidade. Além disso, a Prefeitura de Veneza está estudando limitar os acessos diários ao centro histórico da cidade.

Nos últimos anos, Veneza apareceu nas manchetes internacionais por episódios de falta de educação e de falta de respeito ao seu patrimônio histórico e artístico por parte de turistas, principalmente estrangeiros. Casos de turistas que mergulhavam nos canais, tiravam as roupas e se lavavam em fontes medievais, urinavam nas ruas, saltavam de pontes históricas ou chegavam até a fazer sexo no meio da cidade, mostraram ao mundo como a degradação está tomando conta de Veneza. E os cidadãos, indignados, decidiram responder indo às ruas para protestar.

Turistas pulando de ponte em Veneza (Foto: Reprodução/Twitter/)

Turistas pulando de ponte em Veneza (Foto: Reprodução/Twitter/)

Butão

O turismo no Butão só começou em 1974, e já na época as autoridades locais decidiram regulá-lo de forma muito rígida para preservar a paisagem intocada do país e sua cultura única. O reino do Himalaia escolheu uma política turística definida como “de alto valor e baixo impacto”. Isso significa que o número de turistas é limitado e que os visitantes têm que pagar cerca de R$ 780 por dia por vistos e taxas para poder admirar as belezas do Butão.

Crianças butanesas (Foto: Prakash Singh;AFP)

Crianças butanesas (Foto: Prakash Singh;AFP)

Barcelona, Espanha

Quando Ada Colau, primeira prefeita mulher de Barcelona, assumiu o cargo em 2015, não moderou as palavras sobre o turismo em sua cidade. “Não queremos que a cidade se torne uma loja de souvenir baratos”, afirmou Colau na época, indicando Veneza como exemplo negativo.

Desde então, ela congelou licenças para a construção de novos hotéis e apartamentos de férias, e declarou guerra aos sites de aluguel de curto prazo, como AirBnb, que sofreu uma multa de 30 mil euros (cerca de R$ 110 mil).

Ela também propôs a introdução de um novo imposto turístico e a limitação do número de visitantes, além de apresentar na Câmara Municipal um plano que proíbe a construção de novos hotéis nos bairros que recebem a maior quantidade de turistas.

O Templo Expiatório da Sagrada Família de Barcelona (Foto: Christophe Simon / AFP)

O Templo Expiatório da Sagrada Família de Barcelona (Foto: Christophe Simon / AFP)

E a população parece aprovar essa linha-dura da prefeita. Em janeiro, os habitantes de Barcelona se manifestaram contra o que consideram um crescimento descontrolado do turismo, que prejudicou suas vidas cotidianas.

Há anos, os residentes de La Barceloneta, outrora um pequeno vilarejo de pescadores, vêm colocando cartazes em suas sacadas pedindo aos visitantes que respeitem seu sono e sua vizinhança. A cidade de 1,6 milhão de habitantes recebeu mais de 30 milhões de turistas em 2016.

Amsterdã, Holanda

O chefe do Departamento de Marketing da cidade de Amsterdã, Frans van der Avert, já deixou claro que a capital holandesa está acolhendo turistas demais. “As cidades estão morrendo de turismo. Ninguém mais vai querer morar nos centros históricos. Muitas cidades históricas menores na Europa estão sendo destruídas pelos visitantes”.

Ao falar no Fórum Mundial de Turismo em Lucerna, van der Avert acrescentou: “Não gastaremos mais um centavo em marketing para promover Amsterdã. Não queremos ter mais pessoas. Queremos aumentar a qualidade dos visitantes. Queremos pessoas que estejam interessadas na cidade, e não que a transformem em um cenário de festa. Temos muitos visitantes que não respeitam o caráter da cidade. As companhias aéreas de baixo custo criaram um problema. Os passageiros da Ryanair são os piores”.

Estação central de Amsterdã (Foto: Reprodução/Twitter/@Iamsterdam ‏)Estação central de Amsterdã (Foto: Reprodução/Twitter/@Iamsterdam ‏)

Estação central de Amsterdã (Foto: Reprodução/Twitter/@Iamsterdam ‏)

Termas japonesas, Japão

Muitos turistas viajam ao Japão com o objetivo de experimentar as famosas termas naturais (“onsen”, em japonês) e as casas de banho comunitárias (“sento”, em japonês). A maioria desses visitantes tem acesso livre. Entretanto, o crescente fluxo de turistas levou as autoridades locais a limitar o acesso, especialmente para os visitantes tatuados.

Uma pesquisa divulgada em 2015 pela Agência de Turismo do Japão (JTA) mostrou que mais da metade de todos os onsen proibiu recentemente o ingresso de visitantes tatuados, ou exigiu que eles cobrissem o desenho em sua pele. As tatuagens ainda são um tabu no Japão, muito ligadas na cultura popular com os mafiosos da Yakuza.

Mas nos últimos 10 anos o número de turistas no Japão disparou, e muitos deles vêm de culturas onde as tatuagens não são consideradas um problema. Um choque cultural que ainda hoje gera conflitos em algumas localidades japonesas.

As famosas termas naturais japonesas (onsen) (Foto: Reprodução/Twitter/@onsen_nyuyoku)

As famosas termas naturais japonesas (onsen) (Foto: Reprodução/Twitter/@onsen_nyuyoku)

Santorini, Grécia

Em 2016 a popular ilha grega de Santorini começou a limitar o número de visitantes. A ilha, famosa por suas paisagens deslumbrantes e românticas, chegou a receber mais de 10 mil turistas por dia. Uma massa humana que desembarcava simultaneamente de gigantescos navios de cruzeiros. Hoje apenas 8 mil pessoas podem visitar a ilha por dia.

Ilha de Santorini (Foto: Reprodução/Twitter/@TravelSantorini)

Ilha de Santorini (Foto: Reprodução/Twitter/@TravelSantorini)

Cinque Terre, Itália

A área costeira do noroeste da Itália, declarada Patrimônio Mundial da Unesco, também foi obrigada a se proteger da maré dos turistas. Sob crescente pressão de um número cada vez maior de visitantes, em fevereiro de 2016 Cinque Terre introduziu um sistema de emissão de ingresso e limitou a venda a 1,5 milhão de pessoas por ano.

Superado esse limite, o ingresso no charmoso litoral italiano estava restrito. Até o verão anterior a aplicação do limite, mais de 2,5 milhões de turistas chegaram na região para visitar o conjunto de cinco pitorescas aldeias marítimas conectadas por caminhos estreitos cavados na rocha dos penhascos.

Manarola, Cinque Terre (Foto: Reprodução/Twitter/@cinque_terre)

Manarola, Cinque Terre (Foto: Reprodução/Twitter/@cinque_terre)

eychelles

As Seychelles, arquipélago de 115 ilhas ao largo da costa oriental da África são um destino popular para turistas e famosos. Por exemplo, os príncipes William e Kate passaram lá a lua de mel. O turismo é a maior indústria em Seychelles. No entanto, em abril, o Ministro do Turismo e Cultura anunciou que está planejando um teto para o número anual de turistas admitidos no arquipélago para preservar o futuro do pequeno país, visitado todos os anos por cerca de 250 mil pessoas, seis vezes o número de habitantes.

Vista aérea das Ilhas Seychelles, arquipélago no Oceano Índico (Foto: AP / Wilderness Safaris)

Vista aérea das Ilhas Seychelles, arquipélago no Oceano Índico (Foto: AP / Wilderness Safaris)

Dubrovnik, Croácia

A cidade de Dubrovnik, na Croácia, registrou em 2016 um recorde insustentável: 10 mil visitantes em apenas um dia. Demais para o pequeno centro histórico dessa vila medieval, declarado patrimônio da humanidade da UNESCO. Uma explosão turística provocada pelo seriado “Games of Thrones”, cujas principais cenas foram filmadas em Dubrovnik, ambientação de King’s Landing, capital dos Sete Reinos.

Prefeitura de Dubrovnik está tomando medidas para controlar melhor o turismo e preservar a cidade (Foto: CONSELHO DE TURISMO/DUBROVNIK)

Prefeitura de Dubrovnik está tomando medidas para controlar melhor o turismo e preservar a cidade (Foto: CONSELHO DE TURISMO/DUBROVNIK)

O então prefeito Andro Vlahušić decidiu acabar com as hordas de turistas que estão invadindo a cidade trazendo problemas de todos os tipos, e decidiu implementar um teto de visitantes: 6 mil turistas por dia no máximo.

O pedido de limitar o acesso a cidade veio diretamente da Unesco. A organização alertou que a enorme expansão do número de visitantes, especialmente aqueles vindos em cruzeiros, gera riscos para a conservação dos monumentos históricos de Dubrovnik e cobrou medidas da Prefeitura. Cercada pelas águas cristalinas do mar Adriático, a Cidade Velha tem igrejas, monastérios, palácios e fontes de estilos gótico, resnascentista e barroco, tudo cercado por uma imensa muralha medieval. Uma cidade linda de se ver, mas que também precisa ser preservada.

Ilhas da Tailândia

Um dos principais destinos d mochileiros do mundo inteiro, a Tailândia é um país extremamente turístico. Entretanto, em alguns lugares o acesso aos turistas está proibido por causa das preocupações ambientais do governo local.

Em maio de 2016 o acesso às ilhas de Koh Khai Nok, Koh Khai Nui e Koh Khai Nai, conhecidas pelos incríveis corais coloridos e muito populares entre os turistas de Phuket, foi estritamente proibido. O Departamento de Recursos Marinhos e Costeiros (DMCR, na sigla em inglês) da Tailândia informou que até 80% dos recifes foram degradados por causa da presença maciça de turistas, levando assim a decisão de proibir o acesso as ilhas.

Islândia

A Islândia é um dos destinos mais populares do mundo. Terra cheia de incríveis paisagens delicadas naturais. O boom turístico trouxe a essa ilha do norte da Europa uma grande riqueza econômica, mas colocou uma pressão enorme sobre os recursos naturais do país, que conta com uma população de apenas 332 mil pessoas. Em 2016, somente os turistas dos EUA que desembarcaram na Islândia foram mais do que que a população local inteira. No total, em 2017 os turistas que chegarão na ilha são estimados em cerca de 2,3 milhões.

Esse turismo de massa está colocando em risco a preservação da biodiversidade islandesa. Por isso, o governo está considerando limitar o número de turistas permitidos em alguns dos pontos turísticos mais populares para proteger suas maravilhas naturais.

Paisagem da Islândia (Foto: Reprodução/Twitter/@thisisiceland)

Paisagem da Islândia (Foto: Reprodução/Twitter/@thisisiceland)

A proposta vem do novo governo de coalizão, que está buscando formas de proteger e preservar seu famoso patrimônio natural da superlotação provocada pelo aumento dos visitantes. Em uma recente entrevista, a ministra do turismo do país, Thordis Kolbrun Reykfjord Gylfadottir, disse que os turistas também se beneficiarão de um aumento da regulamentação.

“Algumas áreas simplesmente não aguentam um milhão de visitantes por ano”, afirmou a ministra. “Se permitimos o ingresso de pessoas demais em áreas como essa, estaríamos perdendo o que as torna especiais, pérolas únicas da natureza que fazem parte da nossa imagem e do que estamos vendendo”, completou Gylfadottir.

Fonte: G1

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