Falta de água vira rotina em várias cidades de Minas

Ficar até dois dias sem água em casa é uma rotina há três anos na vida da atendente Andressa Gislaine Soares Santos, 22, que mora no bairro Independência, em Montes Claros, no Norte do Estado. “Tem água dia sim, dia não. Às vezes, dois dias sem. Por isso, temos vários tambores para armazenar a água quando ela chega. E isso já faz três anos”, conta Gislaine. Em Minas Gerais, 20 cidades, entre elas Montes Claros, atendidas pela Copasa já convivem com o rodízio no abastecimento ou enfrentam o racionamento. Dessas, dez estão no Norte do Estado, que sofre há seis anos com a falta de chuva. Com isso, segundo a Defesa Civil, 83 municípios mineiros estão em estado de emergência em função da seca e da estiagem prolongada.

Porém, apenas a falta de chuva não explica a necessidade de racionamento. “Estamos nessa situação porque uma barragem não foi feita há 30 anos. Sempre brigamos por uma barragem no rio Congonhas, mas ela não foi construída por governo nenhum”, reclama o prefeito de Montes Claros, Humberto Guimarães Souto.

Para tentar amenizar o problema, a Copasa está investindo R$ 135 milhões em uma obra de captação no rio Pacuí, a 56 km do município, para atender a cidade. “É uma obra importante porque a situação é emergencial. Mas é insuficiente, seria preciso captar no rio São Francisco, pois nossa população é de 400 mil habitantes. Não podemos esperar oito anos para construir a barragem”, diz Souto.

A falta de investimento e de planejamento também é a principal reclamação do prefeito de Bom Despacho, na região Centro-Oeste de Minas, Fernando Cabral. “Há dois anos, estamos utilizando 100% da vazão do rio Capivari na época de seca. E evitamos o racionamento porque choveu. Neste ano não demos essa sorte. A vazão do rio não atende mais a necessidade da cidade. É preciso fazer uma obra para captar no rio São Francisco, mas a Copasa, pelo que parece, não tem recursos para isso”, afirma.

Cabral critica a empresa por tentar resolver o problema de abastecimento quando a situação já era grave. “Há 20 dias, a Copasa tentou furar nove poços artesianos mas não achou água. Foi em cima da hora”, avalia. Com isso, Bom Despacho entrou em racionamento no último dia 25. “A cidade cresceu e não tomaram providências, uma vez que o rio (Capivari) não é mais suficiente. Agora, ficamos sem água das 20h às 8h, dificultando a lavagem de roupa e o banho das crianças”, conta a moradora Rosângela Camargo, 44, que é casada e tem três filhos.

Critica. Para o prefeito de Bom Despacho, Fernando Cabral, o envio de caminhões-pipa pela Copasa não resolve o problema do abastecimento. “É uma ação emergencial, mas fica só nisso”, diz.

Defesa Civil faz licitações

A estiagem e a seca no Norte de Minas motivaram a Defesa Civil do Estado a realizar, neste mês, três licitações, em Montes Claros, Araçuaí e São João do Paraíso, para contratação de caminhões-pipa para atender a área rural de 140 municípios. “O número de carros-pipa será definido pela demanda”, diz o chefe do núcleo de comunicação da Defesa Civil estadual, tenente Paulo Souza.

MUNICÍPIOS AFETADOS

Cidades com racionamento ou rodízio de abastecimento em Minas Gerais, segundo a Copasa

Região Norte
Catuti
Capitão Enéas
Montes Claros
Riacho dos Machados
Ibiracatu (Distrito de Bonança)
Ibiracatu
Mato Verde (Distrito de São João do Bonito)
Pai Pedro
Taiobeiras
Varzelândia

Vale do Rio Doce
Sardoá
Resplendor (Distrito de Calixto)
Engenheiro Caldas Engenheiro Caldas (Distrito de São José do Acácio)
Fernandes Tourinho
Tarumirim

Vale do Aço
Iapu
Sobrália

Região Centro-Oeste
Bom Despacho

Região da Zona da Mata
Revés do Belém (Distrito de Bom Jesus do Galho)

RIO DOCE

Desastre ambiental agrava o problema

O desastre ambiental que atingiu o rio Doce em 2015 ainda prejudica a região. Entre as 20 cidades atendidas pela Copasa, que enfrentam rodízio no abastecimento ou racionamento de água, seis (30%) estão no Vale do Rio Doce. “O abastecimento da cidade era 100% feito pelo rio Doce. Agora, somos abastecidos por córregos que não têm vazão suficiente”, afirma o prefeito de Resplendor, Diogo Scarabelli.

Para amenizar a situação, a Fundação Renova, criada pela mineradora Samarco para diminuir os impactos do desastre, fornece a água que viria do rio Doce. A entidade diz, por nota, que capta água nos rios Barroso, Santaninha e Manhuaçu. E leva o insumo via caminhões-pipa até a estação de tratamento da Copasa. “Um acordo prevê a construção, pela Renova, de uma fonte de captação alternativa que garantiria 30% do abastecimento da cidade. Mas e os outros 70%? Seriam do rio Doce? Os especialistas dizem que a água do rio vai demorar dez anos para ficar boa novamente”, diz Scarabelli.

One Comment

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  1. A COPASA demonstra que continua ser a politica a ferramenta de gestão que utiliza. Com arrogância e prepotência, mesmo com a captação de agua do Pacui rejeitada pela CODEMA do Município de Coração de Jesus, ela inicia uma obra sem nenhuma chancela dos orgão ambientais. Tudo isto para evitar cair definitivamente em total descrédito com a opinião pública, despresando questões ambientais e as populações rurais que vivem rio abaixo e dependem dele para sobreviver. O Rio Pacuí já está secando pelo descaso e também pela falta de chuva, e a COPASA dará apenas o golpe de misericórdia.
    Triste fim do único afluente do São Francisco ainda com sinais de vida.

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